PRÓS E CONTRAS DA TERCEIRIZAÇÃO (PARA STARTUPS BRASILEIRAS)

A popularização da metodologia “startup” de construção de modelos de negócio e empresas traz à tona, uma vez mais, a discussão da mão-de-obra e prestação de serviços terceirizadas. Usadas muitas vezes como uma forma apenas barata de construir produtos e negócios, quando utilizada de forma bem estruturada a terceirização pode levar a excelentes modelos de produtividade e gestão. Ainda assim, seu uso no segmento de tecnologia, design e produção de conteúdo é feita de modo canhestro. A grande verdade é que não há lados mais ou menos culpados e a terceirização, assim como o uso de freelancers pelo mercado, tem seus prós e contras, especialmente considerando a realidade brasileira.

Há casos e casos, e o importante é pesar as vantagens e desvantagens decorrentes do uso desse tipo de expediente em seu modelo – em algumas situações, a terceirização pode ser a peça que faltava para escalar seu modelo, em outras, é o caminho mais rápido para a destruição completa do seu negócio.

Por que usar freelancers e terceirizados?
O empresário brasileiro médio ainda tem receio de utilizar esse tipo de expediente e, por vezes, acaba incorrendo em gastos desnecessários com funcionários ou prestadores de serviço caros demais. Há muitas vantagens no uso desses profissionais e empresas, sem dúvida, algumas delas bastante óbvias e outras nem tanto, como podemos ver a seguir.

Projetos individuais
Muitos consideram que a “questão trabalhista” é o principal entrave da mão-de-obra no Brasil e, assim, que a vantagem da terceirização está basicamente na economia de impostos. Porém, talvez a maior vantagem desse regime seja a possibilidade de se trabalhar ou contratar serviços por projeto e não de forma indefinida. O empresário brasileiro ainda não se acostumou ao fato de que todo o seu processo pode ser dividido em diferentes projetos e isso não é uma possibilidade reservada apenas a startups e empresas de tecnologia.

Por exemplo, se uma padaria deseja oferecer um novo cardápio de doces, talvez possa contratar um chef ou confeiteiro apenas para desenvolver cada um deles, treinar funcionários para produzi-los e posteriormente realizar alguns testes de qualidade e sabor. É o tipo de coisa que caracteriza uma contratação por projeto, mas que aponta para uma situação sustentável – os doces continuarão sendo produzidos e vendidos, mesmo depois que o contrato com o chef expirar ou for finalizado.

No segmento startup, o mesmo procede. É possível criar metas e módulos para cada uma das estratégias a serem desenvolvidas, contratando profissionais, consultores e prestadores que possam levar esses processos a cabo apenas até atingir a meta. Certamente que esses profissionais podem, posteriormente, ser contratados de maneira continuada ou definitiva – mas isso é apenas uma possibilidade.

Custos trabalhistas
É óbvio – terceirizar é mais barato sob o ponto de vista tributário e trabalhista, embora essa vantagem seja até menor do que muitos pensam. Embora os custos sejam substancialmente menores, exceto por casos onde a mão-de-obra ou os serviços terceirizados possam ser qualificados como verdadeiros commodities, essa não deve ser a razão pela qual a terceirização foi definida como estratégia de trabalho.

De qualquer modo, custos com impostos sobre a folha de pagamento, material e ambiente de trabalho para funcionários, as centenas de benefícios e direitos pautados por lei ou exigidas em acordos sindicais e também custos de rescisão e contratação são evitados em sua maioria quando recorremos à terceirização. Especialmente no caso de serviços de apoio, como limpeza, segurança, atendimento e suporte de TI, a contratação de funcionários em carteira é hoje raríssima e evitada pela maioria das empresas. Contudo, todos esses serviços podem ser encarados como commodities.

Grau de especialização
Os gurus dos recursos humanos falam, constantemente, em um personagem lendário e secular: o funcionário multitarefas. Sejamos honestos – embora muitos de nós já tenhamos nos deparado com colaboradores que possuem habilidades em diferentes áreas e processos, há sempre um campo de domínio maior. Isso implica no chamado “custo de oportunidade”. Toda vez que utilizarmos um excelente designer para criar textos de marketing, mesmo que esse profissional “dê conta”, estamos deixando de empregá-lo naquilo que ele faz de melhor. Da mesma forma, estamos apenas achando algo bom o suficiente para tapar um buraco em outra área, ao invés de buscar o melhor recurso humano para aquela situação.

A terceirização e o uso de freelancers permite que startups e empresas em geral selecionem os melhores profissionais para cada tipo específico de projeto ou serviço que pretendem cumprir. Como cada projeto é tratado de forma individualizada, a busca acaba sendo por uma única habilidade de cada vez, sem dispersão e sem uso de “quebra-galhos”. Bem, é claro que isso somente é possível quando não estamos simplesmente buscando um meio mais barato.

Livre negociação
Eis uma coisa que praticamente sumiu de nosso mercado trabalhista, com tantas leis, normativas e acordos sindicais. Quem perde não é apenas o empresário – também o funcionário perde em flexibilidade, negociação de carga e horários de trabalho e também a possibilidade de desempenhar diferentes funções. Com o uso de freelancers e terceirizados, ambas as partes ganham um ambiente de livre negociação real – e mesmo em casos nos quais tanto freelancers peçam valores irreais quanto empresários ofereçam trocados escorchantes, a solução é fácil: basta dizer NÃO.

E boas razões para evitar a terceirização
Nada possui apenas vantagens e a terceirização ou uso de freelas, mesmo para empresas de gestão mais moderna como startups, pode muitas vezes ser um tiro no pé. A ânsia de colocar um produto no ar rapidamente pode levar à contratação bastante atrapalhada de profissionais e empresas prestadoras de serviços e comprometer um negócio ainda em sua fase de nascimento. Por isso mesmo, há algumas boas razões para se evitar a terceirização no segmento startupeiro.

Core business
Sua ideia é sensacional, você criou um modelo que atenderá a pais e filhos, ou pequenos comerciantes, ou algum outro público qualquer. O que você oferecerá? Dicas, um serviço de banco de fotos, um e-commerce especializado… não importa na verdade. O seu produto inicial, o MVP, certamente será um aplicativo ou sistema na web, na maioria dos casos, o que precisará de mão-de-obra contínua de programadores. Nada de errado em “encomendar” apps prontos e plataformas feitas por terceiros, desde que você tenha alguém monitorando internamente e possa dar continuidade ao projeto.

O motivo é simples – é bastante contraditório que uma empresa terceirize, logo de início, sua própria “produção”. Padarias não terceirizam a produção de pães, assim como um restaurante não terceiriza sua cozinha. Componentes ou mão-de-obra de apoio sim, são alvo de terceirizações, mas não são o foco do modelo de negócios. E não adianta vir com exemplo como Coca-Cola – o core business da Coca deixou de ser a produção de bebidas há décadas e passou a ser a distribuição de bebidas, ao invés disso.

Compromisso
Não adianta negar – grande parte dos freelancers não têm compromisso com os projetos que pegam e isso causa interrupções e descontentamento para empresas. É sempre bom possuir um plano B, ou no caso de áreas criativas, terceirizar a produção, não a parte de organização ou criativa. Contratar designers barateiros para montar PSDs em cima de um conceito já desenvolvido é terceirização, já contratar mão-de-obra terceirizada e sem contrato para desenvolvimento de marcas e sistemas inteiros é praticamente o mesmo que jogar na roleta.

Barato que sai caro
É preciso fazer contas para terceirizar qualquer atividade dentro de uma empresa, desde a parte de limpeza até a parte de desenvolvimento web. Muitas vezes, profissionais com honorários aparentemente baratos se revelam um enorme dispêndio no final das contas – seja por gastos com material, cobranças de horas trabalhadas indevidas ou mesmo retrabalho. Além disso, é preciso tomar cuidado: a legislação brasileira não normatiza “freelancers” e muitas empresas terceiristas não honram seus compromissos com funcionários. Ou seja, a terceirização não necessariamente isenta sua empresa de qualquer problema trabalhista.

Qualidade
Mensurar a qualidade quando lidamos com mão-de-obra terceirizada é um negócio complicado. Salvo em casos onde há a existência de um contrato com metas e descrições claras e detalhadas, o uso da terceirização pode implicar em perda da qualidade. O ideal é proceder do mesmo modo que na contratação de um funcionário – histórico, currículos, referências, portfólios, tudo deve ser analisado antes do fechamento de um projeto.

Ideias “surrupiadas”
A pedido do grande Cadu de Castro Alves, também podemos incluir o risco de violação de sigilo ou simplesmente o roubo descarado e aberto de um modelo de negócio ou mesmo de um produto já praticamente desenvolvido. Mesmo com acordos de não-divulgação, os fatídicos NDA, o processo legal para reaver os direitos sobre um produto ou uma ideia, sem a existência de patentes, é algo demorado e incerto.

POR CARLOS MATOS
Fonte: http://startupeando.com.br


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