Indústria joga previsão de recuperação para o 2º semestre

A recuperação da produção industrial deve ficar para o segundo semestre deste ano, na avaliação de associações setoriais consultadas pelo Valor. O fraco desempenho da atividade registrado em março deste ano, que fechou o trimestre com uma queda de 3%, na comparação com igual período de 2011, não começou a ser revertido em abril. A aposta é que a partir de julho as medidas de incentivo à produção anunciadas pelo governo, como a desoneração da folha de pagamentos, junto com a queda da Selic e o câmbio em um patamar acima de R$ 1,90 se reflitam em aumento da produção.
 
O desempenho decepcionante do setor eletroeletrônico em março surpreendeu a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que esperava crescimento. A produção de material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicações caiu 6,9% em relação a fevereiro deste ano, com ajuste sazonal. Já no subsetor de máquinas, aparelhos e materiais elétricos, a queda foi de 0,8% na mesma comparação.
 
As medidas de incentivo à indústria do governo ainda não surtiram efeito, diz Luiz Cezar Rochel, gerente de economia da Abinee. Acredito que, a partir do segundo semestre, a produção melhore e mude essa tendência de queda, principalmente em função das medidas de estímulo e considerando uma melhoria na taxa de câmbio, desde que ela flutue acima de R$ 1,90.
 
Para Rochel, chama atenção o fato de a produção diminuir enquanto o faturamento do setor aumenta. O número de março ainda não foi fechado, mas a expectativa é que se fature cerca de 5% a mais no primeiro trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre de 2011. Há uma dissociação entre negócios do setor e a sua produção. O que explica isso são os importados. As próprias indústrias devem estar aumentando suas importações, avalia. A importação do setor, segundo a Abinee, cresceu 13% no primeiro bimestre de 2012, ante o mesmo período do ano passado.
 
O setor têxtil, que teve recuo de 3,4% na produção em março em relação ao mês anterior, amarga contração de 7,5% na produção no primeiro trimestre na comparação com o mesmo período do ano passado. O aumento de 51,4% nas importações de vestuário nos três primeiros meses, que por sua vez viu a produção encolher em 14,8% no período, também é a explicação do resultado negativo, na visão do presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) Aguinaldo Diniz Filho. Não estamos participando do crescimento do mercado doméstico e a produção reflete isso, afirma. Em abril, o resultado deverá vir negativo também para têxtil e confecção, segundo a entidade. As vendas não estão reagindo, diz.
 
A queda na produção do setor de máquinas e equipamentos em março foi de 0,8% frente a fevereiro. O resultado negativo já era esperado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que começou 2012 com queda nos pedidos recebidos. Houve retração de 10% na carteira de pedidos [na comparação com o início de 2011]. O ambiente não é bom, diz Fernando Bueno, diretor de competitividade da Abimaq. Em abril, a entrada de novos pedidos caiu 12% em relação ao mesmo mês de 2011.
 
Bueno aponta alguns sinais de atividade fraca que ajudaram a construir um cenário desfavorável para o setor de máquinas e equipamentos no início deste ano. A importação caindo, a queda na produção de papel ondulado, a verba do BNDES com baixa utilização, tudo isso é sintoma de produção fraca, afirma Bueno. A recuperação não começou no segundo trimestre. Se acontecer, será a partir do segundo semestre, diz Bueno.
 
Além do aumento das importações, um fator conjuntural explica a queda de 0,6% na produção da metalurgia básica em março. As condições desfavoráveis no quarto trimestre do ano passado, como juros mais altos e real valorizado ainda impactam a produção, segundo Carlos Loureiro, presidente do Instituto nacional dos Distribuidores de Aço (Inda). Soma-se isso a uma dificuldade na competição com o importado. O governo percebeu o quadro e tomou medidas que deverão surtir algum efeito, mas tudo na economia tem efeito defasado. O alcance para reverter o quadro só será sentido no segundo semestre, afirma.
 
A queda em março no setor da metalurgia básica já era esperada por Loureiro, que prevê encolhimento maior para abril. O faturamento das empresas no mês passado se contraíram entre 8% e 10%. As usinas de aço também venderam menos, e pelos mesmos fatores. A redução de impostos só entra em vigor no fim de junho. A desvalorização do real é recente e só vale para os contratos que ainda estão sendo negociados e só vão impactar mais à frente.
 
O único setor que não atribui a queda a fatores conjunturais é o calçadista. A contração de 0,7% na produção em março foi considerada sazonal pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). A alta contínua das vendas no varejo nas últimas cinco temporadas não iria se sustentar neste início de ano, segundo o diretor Heitor Klein. Estávamos prevendo desaceleração a partir de 2012, com reflexos na indústria. Além disso, estamos em período de entressafra das coleções, explica. Mesmo assim, ele prevê encolhimento em abril no mesmo patamar registrado em março.
 
De acordo com a sondagem realizada pela Abinee para abril, o cenário é mais otimista do que o visto no primeiro trimestre. Rochel afirma que 90% das empresas indicaram crescimento em 2012. Acredito que o nosso faturamento cresça até 8% no segundo trimestre e, a partir do segundo semestre, o crescimento deve ser mais acelerado, afirma. A previsão da Abimaq é que o faturamento do setor cresça até 5% em 2012, apesar do fraco resultado apresentado até agora.
 


Fonte: Valor Econômico. Por Carlos Giffoni e Rodrigo Pedroso.


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