De mãos dadas para quê?

O rápido crescimento daquilo que se convencionou chamar de desindustrialização mostra que o setor industrial enfrenta um problema grave, que pode colocar em risco a sobrevivência de fábricas e os empregos por elas mantidos e, por isso, precisa de resposta articulada, do governo, do setor produtivo, dos trabalhadores. Mas industriais e trabalhadores parecem perdidos diante de suas dificuldades.

Pela forma como empresários e sindicalistas vêm encaminhando as discussões para a definição de uma reação comum, o resultado pode ser uma manifestação estapafúrdia e contraproducente.

Discute-se a paralisação das fábricas, com o consentimento do empresariado - o que caracterizaria um locaute -, em protesto contra o aumento das importações.

Do ponto de vista econômico, a paralisação resultaria em maior espaço no mercado interno para os importados - o oposto do que se deseja.

Quanto à repercussão junto à opinião pública e ao governo, os efeitos, se não forem negativos para os responsáveis pela paralisação, seriam nulos.

Há um problema real. No ano passado, enquanto as exportações do agronegócio alcançaram níveis recordes, as de produtos manufaturados, que totalizaram US$ 92,3 bilhões, representaram apenas 36% das vendas externas totais do País, o menor índice desde 1977. Já as importações de manufaturados alcançaram US$ 184,8 bilhões, com saldo negativo de US$ 92,5 bilhões, praticamente igual ao total exportado. O déficit de 2011 é 30% maior do que o de 2010.

Embora os automóveis sejam o produto que o Brasil mais importou no ano passado (US$ 11,9 bilhões) e o setor automobilístico tenha importado US$ 6,31 bilhões em autopeças (o terceiro colocado na lista de importações; o segundo foram os óleos combustíveis, com US$ 7,9 bilhões), esse segmento da indústria pouco tem se queixado do aumento das importações.

A expansão do mercado interno nos últimos anos tem assegurado a absorção do volume adicional produzido pelas montadoras instaladas no País e também das unidades importadas.

Alguns setores, no entanto, sentem agudamente os efeitos do aumento das importações. A indústria têxtil, por exemplo, calcula que, no ano passado, registrou déficit comercial de US$ 4,8 bilhões, 30% mais do que o de 2010. Como alerta ao País, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) criou o "importômetro", painel que mostra em tempo real quanto o Brasil está importando em produtos têxteis e de confecção.

Reunidos na quinta-feira (26/1) na Fiesp, empresários e sindicalistas criticaram o governo, que no seu entender não tem mostrado sensibilidade para seus problemas. "O que é unanimidade aqui é que o governo federal tem um descaso com os setores produtivos brasileiros", queixou-se o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. Por isso, "o setor produtivo, trabalhadores e empresários, está de mãos dadas" para chamar a atenção do governo.

"A impressão que nós temos é que o governo está importando a crise para o Brasil", completou o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT), o "Paulinho da Força", dirigente da central Força Sindical e, pelo menos em tese, integrante da base de apoio ao governo no Congresso.

Cruzar os braços por um dia na última semana de fevereiro é uma das propostas que os sindicalistas examinam com interesse especial e tem o apoio, ainda não oficial, do empresariado. Das seis principais centrais sindicais, cinco participam das articulações. A exceção é a CUT, a maior de todas e fortemente vinculada ao governo Dilma.

Não parece demais lembrar aos empresários e sindicalistas envolvidos nessas discussões que, além de queixar-se da taxa de câmbio e da carga tributária excessiva que certamente dificultam as exportações de manufaturados, eles poderiam exigir do governo medidas mais eficientes de defesa comercial, além de, por seus próprios meios, buscar aumentar a eficiência produtiva, de modo a ganhar competitividade interna e externa. Fariam melhor para eles próprios - e para o País.



Fonte:Blog Relações de Trabalho


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