A queda da margem operacional é sempre uma má notícia?

Os analistas mostram demasiada preocupação com a margem operacional das companhias. Sua redução no curto prazo é necessariamente uma má notícia? Não. O investidor deve se atentar para a estratégia de crescimento da companhia, para o retorno sobre o capital investido e a geração de caixa.

A margem operacional é um dos indicadores mais utilizados pelos investidores para analisar o desempenho de uma companhia. O cálculo compreende a divisão do lucro operacional pela receita líquida. Em regra, o nível de margem apresentado varia de setor para setor e quanto maior mais rentável é a companhia. Contudo, para análises de prazos mais curtos, sua redução não necessariamente indica uma piora operacional.

Durante a divulgação dos resultados trimestrais tem-se percebido que analistas punem as companhias que apresentam margens inferiores às apresentadas anteriormente. Esta abordagem pode ser leviana, pois a queda de margem, em alguns casos, pode significar uma mudança na estratégia da companhia ou um impacto momentâneo, de curto prazo.

A redução da margem pode ser oriunda de diversos fatores, endógenos ou exógenos, como: expansão em segmentos de menor margem operacional; direcionamento ao mercado externo em um momento de valorização cambial; estratégia de incremento de participação no mercado local (ganho de “market share”) e descasamento momentâneo entre aumento de custos e repasse de preços.

Além disso, uma companhia com boa parte de seus custos variáveis, como empresas de serviços, tem mais dificuldades de expandir suas margens e nem por isso deixam de ser boas opções de investimento.

O desenvolvimento em setores de menor margem pode ser uma boa alternativa, caso o retorno sobre o capital investido seja superior ao das demais alternativas e ao custo de capital da companhia, pois irá melhorar a geração de caixa. A estratégia de agregar “market share” ou desenvolver-se em novos mercados pode trazer impactos negativos no curto prazo, mas benefícios perenes em horizontes mais longos.

Contudo, uma visão equivocada de que a queda de margem é sempre negativa pode provocar a desvalorização do preço corrente das ações da companhia. A análise deve ser feita tomando por base o retorno sobre o capital investido e a geração de caixa que possui impacto direto na determinação do valor justo da companhia e não sobre a margem operacional percentual.

Em decorrência desta visão apressada, ações de companhias com crescimento anual de receita líquida e Ebtida (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização) na casa dos dois dígitos têm sido penalizadas.

Podemos destacar alguns pontos que explicam esta abordagem:

(i) A estagnação da economia brasileira por décadas. Em uma economia que não cresce, a alternativa para incremento de resultados é obrigatoriamente redução de custos e/ou incremento de preços, trazendo, por sua vez, a melhora das margens. Em uma economia mais dinâmica, as alternativas são mais amplas, trazendo um desafio maior ao analista.

(ii) O crescimento da importância de investidores com perfil mais agressivo. Investidores como os “hedge funds” trouxeram maior volatilidade ao mercado tendo em vista seu perfil de curto prazo, elevando a importância das análises trimestrais.

(iii) A ampliação do universo de empresas a serem cobertas. Com a abertura de capital de diversas empresas desde 2004, os analistas não têm tido tempo hábil para uma análise mais acurada. Assim, a avaliação tem sido mais simples, por intermédio de indicadores de mais fácil elaboração.

Não se está aqui criticando os investidores de curto prazo, pois o mercado possui espaço para os diversos perfis. Mas, sim, simplificações que podem gerar análises errôneas.

O desenvolvimento do mercado acionário brasileiro e uma comunicação mais eficiente dos departamentos de relações com investidores podem reverter esta tendência, administrando, de forma mais eficiente, a expectativa do mercado. Com isso, as companhias devem deixar claro para os analistas suas estratégias de crescimento, as informações sobre a rentabilidade de cada unidade de negócio, os investimentos necessários à expansão etc. Um bom relacionamento entre analistas e companhia será benéfico para ambos.



Fonte : Valor Econômico – Por André Rocha


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